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domingo, 4 de setembro de 2022

Joaquim Vaz de Oliveira

Joaquim.

Um dos nomes mais bonitos que já ouvi. De apelidos herdei o último, mas muitas vezes conversámos sobre o porquê de eu não ter o Vaz. Não sei o que as pessoas conhecem do meu avô nem que estórias viveram com ele que ficassem para a História, mas o que eu sei e vivi foi bonito. Tão bonito que me fez voltar a uma escrita adormecida há uns anos.


Quando olho para esta foto sinto gratidão. Sinto-a porque desde esse dia que nos foi concedida a possibilidade de criarmos memórias juntos, durante 36 anos. E, ainda bem que assim foi, todas elas são importantes para me preencher os dias. 

O Joaquim foi o único avô dos meus dias. Não conheci outro. O avô das viagens, dos árabes, das áfricas, dos Ray Ban, das canetas Parker, da pesca, do jornal do Fundão, do senhor abade e do ceguinho que saltava pelo pão com azeitonas, do Carvalhal, da salada, da fruta, da paciência, das voltinhas de triciclo e das idas ao circo chen onde comprava queijadas de sintra, pipocas e algodão doce.

A mim, pediu-me o mais dificil: que o acompanhasse à faculdade de Medicina porque queria doar o corpo à Ciência aos 82 anos de idade. Ri-me e disse-lhe que o fazia mas que não se preocupasse porque ainda duraria até aos 100! Sem diabetes, sem hipertensão, sem doenças crónicas além de depressões, questionei-me a rir sobre o que iriam estudar e saber sobre ele.

Viveu até aos 93 anos. Uma pandemia impediu que estivesse com ele durante os 2 meses anteriores à sua morte. Caiu na sala depois da sua sesta. Fraturou o femur e, numa transferência de hospital com o objetivo de ser operado, uma gota de gordura antecipou-se e invadiu-lhe uma artéria, levando a uma embolia.

Tenho saudades deste colo, destas mãos grandes cheias de manchas. Sabia-lhe de cor todos traços. Olhei muitas vezes de cada vez que me despedia dele para ir para Londres. Criei essa memória porque sempre receei que não esperasse por mim. De nada me valeu perante a pandemia.

Morreu no dia 7 de Abril de 2021, dia Mundial da Saúde e o seu corpo foi entregue à Faculdade de Medicina como assim desejou. No dia 14 de Junho de 2022 regressou para nós. Em breve sei que libertaremos as cinzas no seu Carvalhal em plena Serra da Gardunha.

A vida e o amor querem se livres.

Lembro as últimas palavras ao telefone no meu aniversário um mês antes, "A minha netinha. Saúde, sorte e algum dinheirinho para os gastos" <3



terça-feira, 29 de outubro de 2013

Raios numa noite.

A Saudade é de facto "uma ar que vou sugando e aceitando". Leonor és uma emoção que alimenta esta saudade que trago. 
E que saudades loucas hoje! Tem dias, tem noites! A Maria Rosarinho nunca teve facebook senão levava um tag também! 
Vocês devem-se rir muito à custa destes meus delírios.

Vocês não tinham nada que me deixar!! 



segunda-feira, 15 de julho de 2013

10km








Há um ano atrás falei com a minha amiga L.
Estive com ela deitada naquela cama do IPO.
Agarradinha a ela, enchia de beijinhos.
Eu e a M.
Rimos e promessas foram feitas.
Custa a crer que um ano depois não possa mais ouvir aquele sorriso e aquelas palavras pronunciadas já com severa dificuldade.
Hoje, consegui o feito prometido: a medalha dos 10km em menos de uma hora.
Por ela.
Por tantos outros.
Porque a luta continua.

           Em memória:

Martinho
Comadre Aida
Mariana do Manata
Paula
Minha MÃE Rosário
Amilcar
João Manuel Delgado
Tio Padre Luis
Sr Mendes
Toninho
Luís Rei
P. ( um doente pediátrico que perdi em 2005)
Sr Melão
Quim
Leonor
Primo Luis Silva

E tantos outros.

No fim da corrida, quando parei e me sentei, as lágrimas foram inevitáveis num dia recheado de lembranças como o de hoje. 
Não ter ninguém a aplaudir e à minha espera para me abraçar, também não facilitou.
Mas, enquanto olhava para todas aquelas mulheres a serem congratuladas pelos maridos, namorados, pais, irmãos, irmãs, filhos, mães..... Percebi que todas estávamos ali por historias e perdas diferentes mas lutas e vontades iguais.
Uma cura. Um fim! Um novo começo!

E, enquanto observava e pensava, no meio da minha choradeira, eis que uma senhora me aborda:

"Veio sozinha? Não tem ninguém a apoiar?"

" não.... O meu apoio é outro. Está num nível superior e é bem mais poderoso"

"Aí sim?"

"Sim.... Consegue estar em todo o lado e portanto até comigo esteve a correr "

Rimos e fomos felizes :)

domingo, 31 de março de 2013

A vida corre como um rio.

Tem dias que me apetecia dar cabo da memória. Elimina-la de fininho. Tem outros que agradeço por existir para me manter, para me fazer lembrar sem fazer dói dói.
E, ontem sem querer, fui seleccionando mensagens antigas para apagar e eis que leio todas da L. Fiquei horas a olhar para o nome na lista de contactos e mais uma vez deixei ficar. Não sei como se apaga um nome assim. Li as mensagens de traz para a frente e de frente para trás e deixei ficar todas. Quero escrevê-las num papel e guardar mas também não o fiz. Não sei como. Continua a não fazer sentido.
Saudades Loucas. E a vida corre como um rio.



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Hold me tight.


"Estava sentada a almoçar na esplanada quando recebi o telefonema para ir. Ir contra a tua vontade porque sempre me pediste para não o fazer nesses últimos dias. Decidi assim aquela hora que queria ir. Por egoísmo ou até por saber do que iria padecer a seguir a te ver partir. E fui. Fomos. 
Pelo manhã já tinha recebido uma mensagem da tua queria enfermeira e minha amiga "Ola Maria (...) disse que mandaste um beijinho e ela chorou, depois falamos". Porque não arranquei logo naquela hora? Porque não fui contra a tua vontade como fiz um mês e meio antes? Mas não, deixei para depois de almoço. E, quando ia a subir as escadas...não cheguei a tempo.
Fecho os olhos e percorre-me no corpo o calor que ainda senti nas tuas mãos que caíam sobre o colchão por cima da manta. E nessa hora, senti aquele abraço forte que no mesmo sítio havíamos dado em Julho. Recordo estar deitada ao teu lado num outro quarto e de ter encostado a cabeça no teu peito e te ter dito que te amava. Que não te queria ali sozinha. Que não precisavas de falar para não te cansar. Eu podia estar só ali sossegada ao teu lado a ler ou a contar te as minhas estórias. Dei-te tantos beijinhos. Ainda nos rimos tanto com os meus disparates, coração. Devia ter insistido mais vezes como fiz nesse dia. Não suporto a ideia de ter chegado tarde. Mas sei que soubeste que ia a caminho. Sei que to disseram.
Percorro o meu telemóvel e não sei o que fazer com o teu nome, não sei o que fazer com as tuas mensagens. Estão aqui todas gravadas e trancadas a chaves. A última mensagem escrita tua é de 11 de Julho de 2012. A partir daí já foi só por Facebook  Mas também estão aqui todas. Assim como todas as memórias. Tudo o que me aquece o coração porque era assim que tu querias.
Durrenmatt escreveu um dia que o nosso anjo protetor nos vem buscar e que, nos leva a passear numa longa viagem por todos os sítios onde fomos felizes. E isso leva muito tempo. Espero sentir-te em muitos deles porque vou fazer questão de ir lá várias vezes."

segunda-feira, 15 de outubro de 2012




Nunca te esquecerei.
Já faz hoje um mês.
Que saudades minha doce amiga :(

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Não consigo aceitar que não estás aqui.




"Neste momento, neste lugar, neste minuto da minha vida, não quero acreditar que TU não fazes parte dela.
Ainda ontem quando encomendava o bolo com um trombinhas (um elefante como tanto querias), sentía que estaríamos juntas.
Pensar que juntas significaria apenas sentir o vento, a chuva ou um raio de sol, parecia utópico.
Olho em volta e vejo-nos aqui todos a celebrar a tua existência, a tua vida...
Olho em volta e os nossos momentos passam como fitas de filmes de cinema...
Ainda sei de cor o cheiro do teu perfume, ainda te vejo a descer o Golfinho com os teus Keds brancos.
Ainda brilha o Sebastião no teu pescoço!
Ainda me vejo a chegar ao Ispa e ficar na rua à tua espera, perdida em Lisboa.
Ó Leonor, ainda oiço 20 000 seconds since you left me.
É tão difícil aceitar a tua partida.
Pensar que tantas e tantas vezes falámos em como aceitar a partida de alguém, compreendendo o bom que foi ter esse alguém na nossa vida.
Há 14 anos atrás os Deuses levaram-me a minha Mãe e, há 13, logo meses depois, TU entraste na minha vida.
TU e tantos outros que aqui estão hoje.
Oxalá a lição tenha ficado sabida e, eu venha a aceitar a tua partida, compreendendo a maravilha que foi ter-te conhecido. Ter-te abraçado, ter-te enchido de beijinhos ao festejarmos os sucessos, termos pulado juntas em tantas Passagens de Ano, termos chorado juntas no dia antes da missão com a AMI em Cabo Verde, termos festejado os 18, os 25, a carta de condução, o primeiro emprego, os namorados, os amores, o carro novo, a tua vinda para a Lourinhã, a nossa amizade, as nossas vidas nos últimos anos...
Em Julho, quando te abracei naquela cama do IPO, deitada ao teu lado, só me apetecia cantar aquela nossa música da Adriana Calcanhoto...Vem vambora, que o que você demora é o que o tempo leva...
E, como sempre, foste tu que me consolaste. Como sempre fizeste para nos proteger a todos.
Hei de te amar, hei de te amar sempre. Hei de fazer o teu nome e a tua pessoa nunca serem esquecidos.
Mas, como diz o teu amado Djavan... Fica faltando um pedaço,
ficas a faltar TU."

Carta lida a 22 de Setembro 2012
Walk4Leonor

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Keep it strong.



A batalha abalou-te um pouco mas estás no caminho para ganhares a guerra!!!!!

Estou sempre contigo.
A cada dia, a cada noite, a cada hora, onde quer que estejas.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Como é que se faz.

18 de Novembro de 2011

"Como é que se faz? Como é que se sobrevive? Como é que a vida nos deixa seguir mesmo sem tantas vezes ter vontade. Às vezes pergunto-me como se faz. Como é que me levantei no dia seguinte e caminhei no meio de toda aquela gente. Como é que voltei para casa. Como é que voltei a estudar, a comer, a vestir, a ir ao médico, a ir à praia, a mascarar-me, a crescer...a seguir.

Como é que se fez? Como é que continuei tantos anos. 13 anos. Hoje já somo mais um. Mais um sem te ver. Sem te cheirar. Sem te beijar. Sem te sentir. Tem sido sempre a somar. Há dias que parece que não passou nem um. Há dias que parece até que não te vi nesta vida, de tão distante que me sinto.
Hoje não quero escrever coisas tristes. E é por isso que escolhi esta foto. As pessoas precisam de se lembrar de ti. Não me interessa se publico isto para meio mundo. Só quero que saibam quem foste, quem és. Só peço dia após dia para que nunca te esqueçam. Assusta-me pensar que os anos passam tão depressa e que deixem de falar de ti.
Que deixem de saber a apaixonada que tu eras por Carnaval. Não falhavas um dia dos três de cada ano.
Que deixem de saber que adoravas praia, que o teu sonho era ter tido um peugeot cabriolet, que uma das tuas viagens favoritas foi a Bruxelas, que tinhas a melhor mão para a cozinha, que tinhas um gosto ímpar, que cheiravas a Trésor da Lâncome, aliás, que fazias colecção de frasquinhos de perfume dos pequenos (miniatura).
Que eras a Mãe mais carinhosa do mundo, a educadora de infância mais querida naquela escola.
Que gostavas de dar só porque era segunda feira.
Que adoravas vir a casa meia hora e fritar dois ovos estrelados om pão de ribamar e uma laranja à pressa e voltares para a escola.
Que adoravas Sesimbra e o restaurante do Sr Batalha.
Que adoravas vinho Muralhas, Lagosta e Cabrito.
Que eras fã número um de amarelo e do Sting.
Que eras a pessoa mais sardenta e com o sorriso mais branquinho que eu conheci.

Foste brilhante. Foste tão brilhante.
Ao longo destes treze anos, mil e uma pessoas se têm cruzado na rua para me vir falar de ti, de quem foste, do quanto eras importante e do quanto a tua figura lhes tem feito falta na vida. Não imaginas quantas!!

Não só na vida deles. Mas na minha. Todos os dias, todos os momentos.

Antes dizia que desde que tudo acabou eu nunca mais havia sido a mesma.
Hoje, penso diferente. Hoje sou diferente porque tu exististe na minha vida o tempo necessário para eu ser quem sou.
Não o suficiente mas o necessário para me fazeres feliz, para me fazeres mascarar todos os anos, não importa onde esteja ou com quem esteja, porque sei que estaremos as duas lado a lado, sempre, feitas palhaças.

Com todo o meu amor,
                                 Maria"

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

where are you

Eu nesta altura do ano ando sempre meia avariada mas chegar ao ponto de adormecer nunca me tinha acontecido.
Ontem chamaram-me de urgência para o Hospital às 22h e lá fui fazer noite. Hoje com explicação às 13h quem é que se levantou da cama? Acordei às 13h10m. Ai que raiva!
Nunca tal me tinha acontecido e agora estou toda aparvalhada.
Está um frio terrível e o meu pensamento vagueia à solta perdido na cidade. Mais 20 minutos e fica noite escura e os meus fantasmas assaltam-me a memória.
Hoje é um dia feliz porque a minha amiga M. faz aninhos mas nunca deixo de pensar o que estava a fazer há uns anos atrás. É me impossível não lembrar, não reviver, não massacrar e amassar a ferida.
Quando serei crescida o suficiente?
Quando serei forte o suficiente para lembrar sem dor?
E aceitar e seguir...


"Há doze anos por esta hora já tinha chegado da escola. Era suposto ter ido a Lisboa ao IPO visitar-te.
Mais uma vez Mãe, os testes, as notas, a escola falaram mais alto. Eu acho que, ou não queria ver ou não percebia o que realmente se passava contigo. Reconheço que talvez nem me passava pela cabeça que ao dia seguinte já não estarias entre nós e aqui comigo.
Se soubesse juro que teria feito tudo tão diferente.
Tinha ido ter contigo e tinha-te tirado daquele quarto horrível. Tinha-te levado a passear e nunca te tinha largado um minuto que fosse. Tinha abraçado até me perder e tinha memorizado a tua cara, a tua voz, o teu perfume se se se se se....se soubesse que nunca mais te via ou ouvia.
Ui como me dói ainda. Como está acesa a tua ausência.
O destino não foi nada generoso connosco.
Poderíamos ter prevenido?
Doíria menos se me tivesse despedido de ti?
Onde andas tu?
Como te estava a contar, há estes anos todos atrás, fiquei em casa. O pai seguiu sozinho para te ir ver. Combinei com ele e contigo que iria amanhã, portanto dia 18.
Naquele tempo se não me falha a memória estávamos numa quarta feira. Acertei as pontas do cabelo, estiquei-o na cabeleireira e estava quase pronta para ir com o papá para Lisboa quando o ouvi chegar a casa e entrar no meu quarto. Já te devo ter contado isto minhentas vezes. Mas recordar é a única coisa que ainda posso fazer e ninguém me cobra por isso. De uma maneira ou de outra faz-me ter-te mais perto.
Nessa quarta-feira já não fui.
E fará amanhã 12 anos que te foste não sei para onde.
Nunca mais te vi e não cheguei a tempo de te dizer adeus e de te gravar na memória para todo o sempre.
Hoje, às vezes é difícil concentrar-me para sentir o teu cheiro e imaginar como serias se aqui estivesses. Com certeza que se calhar nem em Londres estaria agora aos soluços e a vaguear.
Oxalá não te tenhas ido embora por completo. Oxalá ainda por aqui andas a meu lado.
As saudades são imensas.
Mas vou seguir... beijo doce como tu*"

domingo, 24 de outubro de 2010

Avó China

Avó China.
Faz hoje 12 anos que se foi embora. Dias confusos aqueles, a Mãe doente e a avó a terminar assim, num suspiro sem dor, felizmente. Foi a primeira pessoa que me fez perceber o que realmente é a morte. Até então nunca tinha perdido ninguém, não imaginava o que era a situação de não ver nunca mais.
O chamar de avó China era uma alcunha. Não sei qual das primas mais velhas começou por chamar mas aqui a caçula seguiu o exemplo. Com Ela aprendi algumas coisas, possivelmente todas herdamos o bom gosto. Sempre que era para comprar roupa e sapatos lá ia Ela para as ruas do Chiado com a Tia. Casacos pretos compridos e cintados, sapados fechados e com um saltinho atrás. De dia, cheia de tarefas em casa usava um avental só de cintura e o cabelo estava sempre armado num coc com um gancho tipo garfo de tartaruga ou qualquer coisa do género.
Foi numa tarde fria que cheguei da escola apressada porque me disseram que a avó estava esquisita. Lá foi para o Hospital com um AVC. Teve bastantes depois desse. Foram alguns anos a viver connosco em casa mas tenho a certeza que a fiz rir muitas vezes com palhaçadas e diabruras como Ela dizia.
Tenho saudades dela. Fazia uns ovos mexidos como ninguém!
Mas é de coisas assim que a vida é feita. A saudade existe porque aconteceu um dia, é bom e saudável!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Mais uma que é tua.

Vou-te contar o que nunca me lembrei durante todos estes anos. Hoje, durante aqueles breves minutos a vida recuo-me nas mãos, nos pés, pela estrada fora sem parar. Quis correr bem fundo e rápido mas não a apanhei mesmo indo tão devagarinho. Haviam forças poderosas de atrito e nunca consegui alcançar.
Durante estes anos perdeu-se na memória aquele dia mas, hoje ao ver a minha doente afastar-se do Hospital na ambulância assim tão devagar, tudo me assaltou de repente. É impressionante a capacidade do ser humano em apagar tudo o que nos faz sofrer. Podemos demorar anos mas acabamos por apaziguar essa dor e evitar de todo esses maus pensamentos. Contudo, hoje relembrei cada segundo.
Eles entraram pela garagem, abrindo o portão verde, dirigiram-se à porta de madeira que a Nely fez questão de destruir e, encaminharam-se ao teu quarto. Agarram-te ao colo e sentaram-te na cadeira de rodas. Deitaram-te na maca lá fora e entraste deitada na ambulância. Ao fecharem a porta dei-te um beijo tão rápido como o tempo que passou. Ao ver-te partir, a MB agarrou-me o braço à esquerda e chorou que nem uma madalena dizendo que já não voltavas. Pergunto-me como soube ela tal fado?? Nunca diria mas foi o mais puro e duro dos juramentos, jurando verdade. Não voltaste.
Hoje, quando vi a minha doente de manhã fiquei sem chão. Já a achava parecida a ti. A mesma peruca, a mesma pele sardenta, o mesmo olhar divertido e sorridente. Tenho a seguido desde Janeiro. Mas hoje, trazia um turbante na cabeça, tal e qual aquele verde que usavas em casa. Pouco falou comigo, muito sonolenta e ausente. Administrei-lhe duas unidades de sangue. Rezei a cada minuto que entrei no quarto pedindo aos anjos e santos que lhe dessem força para recuperar mais uma etapa. No fim, acordou dizendo - "quero ir para casa, já posso?".
Mordi os lábios. Vi-te a ti, completa, serena a sorrir. Quis abraçá-la com toda a força pensando em ti, mesmo sabendo o egoísmo da minha parte. O marido estava desorientado, não sabia o que fazer. Senti a dor do meu pai atingir-me que nem flechas em alta velocidade.
Percorri todas as listas de telefone, impedi a recepcionista de sair, telefonei ao médico, verifiquei 10 vezes os sinais vitais, confirmei com ela se era a sua vontade e, com todas as minhas forças soube que esta noite ela iria dormir na sua cama, em casa. Depois de dez nãos por parte de empresas de transporte de doentes, lá arranjamos uma com muito esforço, confirmamos o pagamento na seguradora e a minha doente saiu do quarto na maca com dois socorristas. O marido não lhe largou a mão.
O meu turno acabou, agarrei na minha mala e fui com ela até à porta. Vi a ambulância partir devagarinho. Tão devagarinho como a tua e, desta vez sei que ela também não volta. Percorri a estrada a correr atrás dela, desorientei-me por momentos. Até que desisti e deixei-a partir...
 Devia ter insistido e corrido mais atrás de ti.
Nunca mais te vi desde esse domingo...
Quarta feira já não cheguei a ir ao Hospital, já não fui a tempo. E assim ficou a nossa história mal contada e mal resolvida.


Amar-te-ei para sempre*

domingo, 20 de junho de 2010

Nely&Me


Tinha doze anos quando cheguei de um acampamento com a mana, à noite, cansadas de uma semana de aventuras no Paúl. E lá estava ela tão pequenina e com um galo na cabeça. Escondeu-se entre as pernas da minha Mãe. Estava assustada com tanta gritaria e excitação vinda por minha parte e da mana. Que loucura aquela. Ela era um máximo, cor de camurça, com uma risquinha branca ao meio e um focinho de querer apertar até não dar mais.
Os pais todos babados pediam-nos para ter calma porque ela era muito pequenina. hahaahha
Não me lembro de os ver tão babadinhos por aquele tesouro. Até luzinhas de presença compraram para pôr em casa, nas fichas, para que o cachorro não tivesse medo do escuro! Ai que delícia de tempo aquele.
Pois então, crescer com a Nely foi o melhor que podia ter acontecido em toda a minha adolescência.
Tirando todas aquelas partes chatas de limpar o xixi e o cocó ao início até ela aprender ou as portas todas mordidas ou os óculos da mana no lixo. Mas muitas foram as galhofas que nos proporcionou!
Uma vez, a mãe tinha carne preparada para servir, tirou do forno e pousou em cima da bancada da cozinha, cinco minutos depois, estava a ser o almoço da Nely. Os gatos da vizinhança desapareceram durante anos, as minhas barbies foram muitas vezes mutiladas, o lanche que não comia na escola servia para ela.
Ao jantar, ela sentava-se muito direitinha ao lado das nossas cadeiras, olhava assim muito tímida e pestanejava com um fiozinho de baba a cair. Surrateiramente lá lhe davamos alguma coisa sem que pudessem desconfiar.
Também lhe contei muitos segredos. Também me abraçou muitas vezes e mimou. Acompanhou-me muitas das minhas noites sozinha em casa. Deu-me muito colo.
Comia ervas, bebia água do mar. Não podia ver um cão preto.
Teve oito cachorrinhos e chorou bastante quando o esposo foi embora no carro da dona. À primeira vista nada se passou, era uma cadela difícil :P Mas da segunda vez ficou cega de amores! E os filhotes eram lindos lindos lindos....
Agora tenho a Anouk. Que também é uma fofa mas muito ciumenta. A Nely roubou-lhe muitas vezes o protagonismo. A maior parte do tempo, na verdade.
Dia 6 de Setembro vai fazer dois anos que ela morreu.
Passei os últimos meses a caminho da Clinica Veterinária, troquei turnos e fiz giga-jogas para passar o tempo todo com ela. Alternava com o pai, para que nunca estivesse sozinha. Montes de medicação, mas dia-a-dia ia caindo mais. Até que um dia, quando estava a fazer o turno da tarde no hospital, ela escolheu o pai para lhe fazer companhia.
Liguei para a agência funerária de Alcabideche para que a viessem buscar. No dia seguinte fui lá, levei um malmequer cor de laranja do jardim que ela adorava cheirar e, trouxe-a numa caixinha no banco da frente, bem do meu lado, até casa.
Até hoje, ainda não me consegui libertar totalmente dela. Espero em Agosto, num belo dia de sol, ir com a mana à sua praia favorita e deixá-la livre.
"Foste uma grande companhia para a minha família meu doce"

E porquê todo este discurso? LOL
Porque acabei de ver o filme do Marley&Me LOL
E pareço uma madalena arrependida heehehheh
Mas como diz no filme,
"Se deres o teu coração a um cão, ele dar-te-à o dele" 

E a Nely deu, 13 anos.*

sábado, 24 de abril de 2010

Queria de alguma forma prestar uma homenagem a Alguém muito querido na minha vida e que se estivesse entre nós faria anos hoje. Não sei para onde enviar esta carta.

"Querido amigo,
Desde pequena que a primeira imagem tua que trago comigo és tu e o teu bigode. Eu sei que é estranho e cómico ao mesmo tempo, mas é verdade! Fumavas e às vezes o bigode ficava queimado do fumo do cigarro e mudava de cor. Durante alguns anos, em cada dia 17 de Novembro, obrigava a minha Mãe a parar à tua porta de casa ou no Centro de Saúde para te dar o meu desenho sobre o Tabagismo.
Viagens ao Alentejo, banhos no Guadiana, compras de uns sapatos de pano na fronteira de Espanha.
Festas de Carnaval, Ovos escondidos na Páscoa, organizações de festas do Seixal.
Medicina. Quando ia a Ribamar, ao Jardim de Infância ter com a minha Mãe ainda fugi muitas vezes para o Gabinete onde davas consultas. Lembras-te?
Médico de Família, da Família!
Muitas vezes ias lá a casa e, quando te sentavas no sofá e pousavas a mala castanha que abria ao meio e lá dentro tinha todos os blocos de receitas e o estetoscópio, perguntavas: "Então miúda de que te queixas? (...) Vais fazer ben u ron, soro fisiológico nesse nariz e água do mar". Confesso que sempre detestei a parte da água do mar!
Quando a minha mãe adoeceu dizias tantas vezes à porta de casa " F. não te posso dizer mais por agora...amanhã volto cá mas se Ela for para Lisboa avisa-me". Ainda falámos os dois sobre "isso" uma vez. "Isso", aquela doença que anos mais tarde terias de combater também.
Como me custou tanto deixar-te passar por "isso" e, não haver nada que pudesse fazer para impedir. Oh que impotência estúpida.
Exposição de fotografias.
Antes de eu ir viver aqueles meses para Cabo Verde, disseste -me para ir lá a casa porque tinhas umas coisas para me mostrar. Passei uma hora e tal a ver todos os albúns de fotografias que tens sobre Cabo Verde, aliás, se não me falha a memória, conheceste  a maior parte das ilhas.
Cabrito no forno, outra longa história. Um dos jantares que preparei lá em casa e que fiz cabrito no forno sem saber que não gostavas de cabrito! Tinhamos descongelado todas as arcas para limpeza e os congelados estavam todos na casa da Avó. Nem um bifinho tinha para grelhar. Acabou a B. por te fritar um dos que tinhas comprado à tarde. Foi hilariante essa noite!
Levaste-me naquele ano ao Algarve contigo. Na verdade passei muitas tardes e noites em tua casa depois da minha Mãe ter ido embora. Os jantares com pudim ploft!
E na Pink Summer Party, em Agosto passado, lá em casa, adorei a camisa que levaste! Meia vermelha na verdade como disse a Be, mas tu vias cor-de-rosa, porque não? Grandes fotos tirei-te eu a ti nessa noite! Foi nessa noite que a Z. me disse que te ia contar que se ia casar. Obrigada por me teres dado aquela prima.
Tenho saudades tuas L. Não me fazes falta só a mim, fazes a todos. E, como viver de memórias é o que sei fazer de melhor, quis refrescar a tua e fazer-te saber da importância que tens na minha vida.
Nunca te esqueço.
Esta música é para ti.
Parabéns por ti meu amigo."

sexta-feira, 26 de março de 2010

Dizer adeus, quando é para sempre.

weheartit.com

Para Ti minha amiga M, aquele abraço!
I, aquele abraço!
Para as minhas queridas professoras da tua família, aquele abraço!
Para todos os teus, aquele abraço!

Nunca é simples despedirmo-nos de alguém que durante anos preencheu as nossas vidas, mas é importante pensar que, a vida do "primo L.S." (como a minha avó chamava), foi repleta de grandes momentos e cheia! Filhos, netos, casamentos, baptizados, aniversários, natais, páscoas, FAMÍLIA meus amores!
Tudo no seu percurso natural do ciclo que somos pre destinados a cumprir.
Sabe bem, suaviza, pensarmos e despedirmo-nos de Alguém que viveu assim, COMPLETO!
A ti, "primo LS", aquele abraço, apertadinho!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Distância

Cada dia é um dia, sempre soube. mas hoje não consigo dormir e por uma razão imensa de situações. Estou sentida, não triste, mas sentida. Distância. Não se controla, nem sempre se pode colmatar, evitar!
A minha querida avó perdeu o irmão dela. Um homem que viveu ao seu lado uns 90 anos... 90 anos? Poderei eu viver tudo isso ao lado da minha irmã? Se assim for, o que me interessa um ou dois anos de afastamento? Se não, como me custa estar longe. Mas a minha avó... como ela queria o meu abraço agora mesmo! Distância. Pura, insegura, insuportável! Queria abraçar-te agora Agostinha. Queria fazer-te sentir querida, desejada e amada como nunca. Quero que fiques comigo por muitos e muitos anos sem fim. Sempre ouvi dizer que os deuses só levam os que amam. Disseram-me quando a Mãe morreu. Fez sentido porque ela foi embora muito nova. E quando temos 90 anos? Porque ficamos tanto tempo? E porque todo esse tempo não é suficiente? Porque mesmo assim sentimos dor quando nos deixam? Ou porque nos deixam, nem sei bem...
O tio-avô deixava-me sempre ir lá a casa porque ele tinha muitos coelhinhos pequeninos. Ia com a avó para ajudar e perdia todo o tempo com eles ao colo. Antes iamos sempre ver a "cornélia". Uma porca que ficava num barraco bem à beira do terreno dos melões. Sempre chamei Cornélia a todas as porcas que os avós criaram... que riso! Nem sei bem porquê! Mas também não me lembro de mais nenhum nome.
O meu Pai, contou-me que o Tio Manuel costumava abrir um dos melões para ver se já estava pronto para colheita e que, quando era pequeno, durante um verão, foi talhando todos os melões da colheita para provar e ver se já estava pronto. O meu pai estragou parte da colheita nesse ano! A avó e o Tio ficaram doidos nesse Verão. Que riso só de imgaginar!
O Tio Manuel, já não ouvia muito bem, sempre que me via: "Maria Teresa, cuida bem dos teus doentinhos. Oxalá eles gostem sempre de ti. Tu és boazinha para eles?". Sempre me chamou Teresa.
 Hei-de falar de ti aos meus filhos. Agora vou dormir. O blogue é realmente saboroso quando queremos desabafar e partilhar este sentimento de pertença, de família, de carinho. 
Oxalá todas as enfermeiras tenham sido anjos de cabeceira nestes últimos momentos da Tua vida. Obrigada "Ti Manel" por preencheres a minha meninice.